domingo, 14 de março de 2010

Sorrisos. Me faltam sorrisos...
"Você vai me abandonar e eu nada posso fazer para impedir. Você é meu único laço, cordão umbilical, ponte entre o aqui de dentro e o lá de fora. Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê. E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue para manter-se viva. Você rasga devagar o seu pulso com as unhas para que eu possa beber. Mas um dia será demasiado esforço, excessiva dor, e você esquecerá como se esquece um compromisso sem muita importância. Uma fruta mordida apodrecendo em silêncio no quarto."
Caio Fernando Abreu.

sábado, 6 de março de 2010

Sou pessoa de dentro pra fora. Minha beleza está na minha essência e no meu caráter. Acredito em sonhos, não em utopia. Mas quando sonho, sonho alto. Estou aqui é pra viver, cair, aprender, levantar e seguir em frente. Sou isso hoje... Amanhã, já me reinventei. Reinvento-me sempre que a vida pede um pouco mais de mim. Sou complexa, sou mistura, sou mulher com cara de menina... E vice-versa. Me perco, me procuro e me acho. E quando necessário, enlouqueço e deixo rolar... Não me dôo pela metade, não sou tua meio amiga nem teu quase amor. Ou sou tudo ou sou nada. Não suporto meio termos. Sou boba, mas não sou burra. Sou pessoa de riso fácil e choro também!

sexta-feira, 5 de março de 2010

Sabedoria.

Já era noite e eu ainda estava numa reunião de trabalho, quando houve uma grande tempestade. A chuva passou e logo fui embora. No caminho percebi os estragos deixados pelo temporal. Não havia luz nas ruas e nem nas casas. A cidade estava estranha, deserta, nem parecia a mesma. Então comecei a refletir sobre a importância da luz. Entendi que quando ela se apaga nas nossas vidas, assim como a cidade, também perdemos muitas coisas.

Tinha que passar em alguns lugares, mas o escuro me fez mudar de ideia e fui direto para casa. Ao abrir o portão, senti um pouco de receio e então percebi que quando a luz se apaga, a primeira coisa que perdemos é a coragem. Sentimos medo e deixamos de fazer aquilo que tínhamos planejado.

Ao abrir a porta da sala logo tropecei em pequenos objetos espalhados pelo chão. Então aprendi que quando a luz se apaga, perdemos a visão e sem ela tropeçamos em coisas que antes eram insignificantes e não representavam perigo algum. Cuidado, no escuro temos mais chances de cair.

Não havia velas em casa e sem luz não pude ler, ligar a televisão, ouvir música, nem usar o telefone, já que a minha linha depende de energia. Fiquei sem fazer nada por várias horas. Então aprendi que quando a luz se apaga perdemos tempo na vida.

Sem luz lá estava eu andando de um lado para o outro e pensando: Será que ninguém está fazendo nada para resolver essa situação? Cadê a concessionária de energia? Quando isso vai acabar? Então percebi que quando a luz se apaga perdemos também a paciência. Não conseguimos esperar e só questionamos: Será que Deus não está vendo? Por que isso aconteceu? Quando Ele vai fazer alguma coisa?

Então me lembrei que ainda tinha bateria no computador. Como também estava sem internet, comecei a procurar uns cd's de arquivos. Mas sem luz não consegui encontrá-los. Isso me fez recordar da parábola em que Jesus narra a história de uma mulher que havia perdido uma moeda dentro da própria casa. As maiores perdas não são as exteriores e sim aquelas que acontecem dentro de nós. Se perdermos o emprego ou até dinheiro certamente teremos outras chances. Mas se perdermos a fé, a esperança, os sonhos, o caráter e tantos outros sentimentos importantes que habitam em nosso coração, os danos serão bem maiores.

Diante daquela interminável escuridão, tive algumas dúvidas e perguntei a Deus: É melhor ter luz na rua, ou ter luz na casa? Então, senti rapidamente a resposta no meu coração. “Juliano, se todas as casas estiverem com a luz acesa, certamente a rua será iluminada. Mas a luz do poste não é capaz de penetrar em todos os cômodos da casa.”

Infelizmente muitas pessoas brilham apenas por fora, mas são apagadas por dentro. Possuem uma falsa alegria e vivem de aparência. Mas se a luz habita dentro de nós, mesmo que outros ainda não a vejam, chegará o tempo em que ela iluminará não apenas a nós, mas a todos aqueles que nos cercam.
Disse Jesus: “Eu sou a Luz do mundo. Quem me segue não andará em trevas, mas terá a Luz da vida” (João 8. 12).
Pai eu, confiarei...
E só em Ti, repousarei. Pois Tú és fiel.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Como se mede uma pessoa? Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento. Ela é enorme pra você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado. É pequena pra você quando só pensa em si mesmo, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade.Uma pessoa é gigante pra você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto. É pequena quando desvia do assunto.

Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no
lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo
com o que espera de si mesma. Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por
comportamentos clichês.



Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições? Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações. Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma. O egoísmo unifica os insignificantes.

Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. É a sua sensibilidade sem tamanho.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Eu sei, mas não devia.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti