quinta-feira, 19 de junho de 2008

Sentiu os joelhos perderem a força e irem contra o mármore gélido do chão. Mármore este que logo era tocado pelas palmas de suas mãos trêmulas e pressionado contra o seu rosto sem expressão. O corpo todo tremia de frio, e não o frio da noite, o frio do chão. O choque térmico tornando-se cada vez mais insuportável ao invés de logo parar de incomodar. E por mais sem forças que o corpo inerte estivesse, recusava-se a render-se. Esperava-se que logo desmaiaria, mas foi o contrário. Seria obrigado a assistir todo o processo novamente.

O quarto inundava-se. A dor, rasa quando ele chegara, agora reagia violentamente. As ondas quentes tocavam-no o corpo sem pudor, afundando-o por completo. Mas a torpência de perder-se nas águas escuras e profundas não durou mais do que um segundo; como se um ralo estivesse alastrando-se no meio de seu corpo, um buraco fundo sorvia de toda a dor quente e violenta que sercava-o, até estar completamente seco e sozinho. Sozinho com o buraco, agora largo e confortável no interior machucado do corpo ainda inerte.

As bordas, em carne-viva, ardiam como se estivessem sendo tocadas por brasas. Seus órgãos vitais pareciam não sentir as chamas queimando-lhe o buraco; em trapos, machucados e cobertos de sangue, estavam frios, congelados pela falta de funcionamento repentina. Seus pulmões encontravam-se frustrantemente sem funcionamento, e sua busca por ar era inútil. E seu coração... Ah, seu coração! Costurado de volta ao lugar que, supostamente, nunca deveria ter sido arrancado. Maldito coração, rasgado no meio. Brutalmente machucado, inundava o interior em chamas com seu sangue, apagando-as vagarosamente. Imagens, palavras, lembranças, todas elas queimavam dentro das chamas apagando-se, afogavam-se em meio as cinzas e desapareciam. Seu peito era aberto com lentidão precisa, cirúrgica. As cicatrizes da última vez queimavam, queimavam como nunca haviam queimado antes, com todo o seu poder de infligir dor. O buraco rugia, lutando contra todo o processo. E o coração sangrento pulsava em desespero, sendo agarrado bruscamente e atirado longe. O buraco perdia a força, a intensidade, e acalmava-se no interior.

Com as costas apoiadas contra a parede, agora ele podia enxergar todo o cenário. Seus olhos finalmente enxergavam, e queimavam pelas lágrimas que recusaram-se a cair. Precisou abraçar os próprios joelhos para conseguir manter-se inteiro durante o processo, e agora seus braços caíam doloridos ao lado do seu corpo suado, cansado e gelado. A indiferença e o descaso voltavam a inundar o corpo machucado. O brilho dos olhos desaparecia junto com as lágrimas que tentaram formar-se, sendo substituído pelo desfoque, pela inexpressão. Recolheu todas as forças que deixara do lado de fora do quarto trancado, e pôs-se de pé. Caminhou, vacilando diversas vezes antes de conseguir aproximar-se da janela. Olhou para o dia nascendo, a luz do sol queimando-lhe os olhos verde oliva sem-vida. Os raios de sol batiam contra a pele pálida, translúcida. A brisa matinal encontravam os membros insensíveis do corpo interiormente machucado. Caminhou, agora mais forte, até o órgão sangrento atirado em um canto do quarto e agarrou-o com cuidado. Apertou os dedos com toda a força que o seu ser possuía, sentindo as pernas fraquejarem por conta disso, e atirou-o pela janela, vendo-o desaparecer no céu róseo. Os joelhos tocavam novamente o chão. A força agora inundava-o quente como a dor. Rasteja até a cama, forçando os joelhos para pôr-se de pé e largar o corpo exausto nesta.

Um som invade o quarto, incomodando seus ouvidos. Leva alguns segundos para entender que o som era proveniente do aparelho telefônico esquecido em sua mala. Pega-o. Atende-o. Ouve-o. Algumas palavras, e o órgão pulsante renascia em seu peito, cortando-se. A dor nunca deixaria-o em paz. Não de novo. Não mais. Mas não pôde deixar de confortar-se com a dor. Não pôde deixar de abraçá-la, com as chamas internas confortando-o estranhamente.

Eu amo você, Meu Amor. Eu amo você de verdade.


Doze de dezembro de dois mil e oito.

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