domingo, 24 de janeiro de 2010

Eu sei, mas não devia.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias. Mas confuso, perdido, sozinho, minha única certeza é que de cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de ti. Torna-se desesperada, urgente. Eu já não sei o que faço. Não sinto nenhuma outra alegria além de ti. Como pude cair assim nesse fundo poço? Quando foi que me desequilibrei? Não quero me afogar: Quero beber tua água. Não te negues, minha sede é clara.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Seja um idiota (Arnaldo Jabor)

Gente chata essa que quer ser séria, profunda e visceral sempre. Putz! A vida já é um caos, por que fazemos dela, ainda por cima, um tratado? Deixe a seriedade para as horas em que ela é inevitável: mortes, separações, dores e afins. No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota!
Ria dos próprios defeitos. E de quem acha defeitos em você. Ignore o que o boçal do seu chefe disse. Pense assim: quem tem que carregar aquela cara feia todos os dias, inseparavelmente, é ele. Pobre dele.
Milhares de casamentos acabaram-se não pela falta de amor, dinheiro, sexo, sincronia, mas pela ausência de idiotice. Trate seu amor como seu melhor amigo, e pronto. Quem disse que é bom dividirmos a vida com alguém que tem conselho pra tudo, soluções sensatas, mas não consegue rir quando tropeça? Alguém que sabe resolver uma crise familiar, mas não tem a menor idéia de como preencher as horas livres de um fim de semana? Quanto tempo faz que você não vai ao cinema?
É bem comum gente que fica perdida quando se acabam os problemas. E daí, o que eles farão se já não tem por que se desesperar? Desaprenderam a brincar. Eu não quero alguém assim comigo. Você quer? Espero que não.
Tudo que é mais difícil é mais gostoso, mas... a realidade já é dura; piora se for densa.
Dura, densa, e bem ruim. Brincar é legal. Entendeu? Esqueça o que te falaram sobre ser adulto, tudo aquilo de não brincar com comida, não falar besteira, não ser imaturo, não chorar, não andar descalço, não tomar chuva. Pule corda! Adultos podem (e devem) contar piadas, passear no parque, rir alto e lamber a tampa do iogurte. Ser adulto não é perder os prazeres da vida – e esse é o único “não” realmente aceitável.
Teste a teoria. Uma semaninha, para começar. Veja e sinta as coisas como se elas fossem o que realmente são: passageiras.
Acorde amanhã e decida entre duas coisas: ficar de mau humor e transmitir isso adiante ou sorrir... Bom mesmo é ter problema na cabeça, sorriso na boca e paz no coração.
Aliás, entregue os problemas nas mãos de Deus e que tal um cafezinho gostoso agora?
A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que a cortina se feche.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Feliz 2010!

Conhecimento é poder

Sinto-me a bordo de um barco prestes a entrar em um oceano revolto pela tempestade no horizonte. Estou no comando do barco: o timão é controlado por mim, e o leme, agora, segue a direção precisada. Será que mapeei bem a viagem, ou estou indo às cegas para o grande maremoto à frente? Passei por um já, e talvez siga em frente. Passei com um abalo menor do que o esperado. No prazo de quatro e seis dias o barco chegará à tempestade. O que ocorrerá? Um naufrágio sem precedentes? Ou uma saída triunfal? Certamente, a glória estará esperando no final desse tortuoso caminho marítimo. Recoberto com a roupa de gala e com os louros dessa vitória, me encaminharei para a noite máxima. O ápice de 11 anos de espera. O encerramento da etapa será em grande estilo. Em alto mar eu estarei. Sabem-se lá quais e quantas serão as surpresas pelo trajeto. Períodos de calmaria e de tempestade. Marolas e ondas catastróficas. Tenho certeza que meu barco estará preparado para enfrentar as adversidades que virão. Quem me acompanhará nessa viagem? Não sei. Aí é que está a grande maravilha da eterna jornada: a dúvida sobre os caminhos e pessoas que virão. A vida é imprevisível. Não há a necessidade de preocupar-se com o que acontecerá, se isso foge ao seu controle. Controle sua vida, e não deixe que ela controle você. Amigos e amigas, naveguemos por mares desconhecidos, e que a proteção nos acompanhe, enchendo nosso barco com o mais valioso tesouro: o sucesso que se aproxima.
Cansei de deixar para trás copos sujos e cigarros pela metade, beijos sem compromissos, das promessas falsas e corações despedaçados. Desisti dos alucinógenos, com os quais só assim vivia do modo que eu queria, vi as coisas que desejei, pertenci à um mundo que só ela entendia. Era inconsequente, sem medos, sem limites. Parei de agir por impulso, de não dar atenção aos avisos, de sempre perder a consciência e ansiar cada vez mais por advertências. Era como demonstrava o frio que guardava dentro de si, ria de quem advertia, caçoava, machucava e abalava. Talvez isso tenha feito se questionar, partir.

Espero aqui, ansiosa, o retorno da parte que me foi arrancada sem meu consentimento. Cada arrepio, impressão me deixa eufórica, esperançosa. Mas creio que para sua volta eu precise viver mais, viver mais para mim e não em função dos outros. Deixo assim de esquecer das horas, de fazer por fazer, de olhar e não ver nada. Vou esquecer de como preciso desse outro eu, fazer as coisas como devem ser feitas, sorrir, ter afeto e continuar a seguir meus dias. Quem sabe assim ela se lembre de mim e volte sem eu esperar...

Minhas atitudes são automáticas, não há pausa para reflexões, as palavras parecem vomitadas, meus olhos procuram o nada, sem rumo, sem qualquer ponto.
Cansei de deixar para trás copos sujos e cigarros pela metade, beijos sem compromissos, das promessas falsas e corações despedaçados. Desisti dos alucinógenos, com os quais só assim vivia do modo que eu queria, vi as coisas que desejei, pertenci à um mundo que só ela entendia. Era inconsequente, sem medos, sem limites. Parei de agir por impulso, de não dar atenção aos avisos, de sempre perder a consciência e ansiar cada vez mais por advertências. Era como demonstrava o frio que guardava dentro de si, ria de quem advertia, caçoava, machucava e abalava. Talvez isso tenha feito se questionar, partir.

Espero aqui, ansiosa, o retorno da parte que me foi arrancada sem meu consentimento. Cada arrepio, impressão me deixa eufórica, esperançosa. Mas creio que para sua volta eu precise viver mais, viver mais para mim e não em função dos outros. Deixo assim de esquecer das horas, de fazer por fazer, de olhar e não ver nada. Vou esquecer de como preciso desse outro eu, fazer as coisas como devem ser feitas, sorrir, ter afeto e continuar a seguir meus dias. Quem sabe assim ela se lembre de mim e volte sem eu esperar...

Minhas atitudes são automáticas, não há pausa para reflexões, as palavras parecem vomitadas, meus olhos procuram o nada, sem rumo, sem qualquer ponto.